Eficiência

Bons programadores não aceitam atalhos

Bons programadores não aceitam atalhos

Bons programadores não aceitam atalhos

Todo mundo sabe que o mercado de desenvolvimento é um dos mais aquecidos: promessas de grandes salários, emprego garantido e possibilidade de crescimento é algo comum em nossa área.

Isso não é novidade e esse papo já chegou ao grande público. Essa foi a capa da revista exame de março de 2020:

“Eles têm 20 e poucos anos, escolhem onde vão trabalhar e com qual salário. Para contratá-los, empresas chegam a comprar startups inteiras. Escolas de formação nascem Brasil afora já com fila de espera. Bem-vindo ao fantástico mundo dos desenvolvedores de software.”

A promessa do salário de 10k sem precisar saber muito faz com que o interesse de muita gente pela área cresça. É claro que essa é uma afirmação exagerada e fruto de casos fora da curva ou de empresas que têm caixa infinito de investimentos para torrar e não se importam de fomentar um mercado que não tem como se manter no longo prazo.

Não é difícil você encontrar pessoas que nunca se interessaram por programação antes terem agora um interesse repentino, quase sempre atrelado a alguma promessa financeira irreal ou irresponsável.

Quem prega que programar é fácil, esquece sempre de adicionar que o resultado é proporcional ao esforço: se você fizer um curso rápido consistindo apenas em sentar na frente do PC e repetir o que o instrutor faz (como a maioria dos cursos funcionam), a única coisa que você de fato se tornou foi um bom datilógrafo de código, não um programador. E muito menos um bom programador. Talvez você até esteja na média de conhecimento dos profissionais com quem vai trabalhar, mas não se engane, média e medíocre são irmãos gêmeos.

Isso sem falar em home office, que ganhou uma adoção gigante por conta da pandemia mas que agora parece ser o modus operandi da maioria das empresas de tecnologia. Não pense, é claro, que isso vai ficar assim para sempre. Já é possível notar um movimento contrário ocorrendo em algumas Big Techs.

Cito o home office porque me parece de uma irresponsabilidade tremenda empresas abrirem vagas nessa modalidade para júniores ou mesmo para estagiários. Para alguém em começo de carreira, tirar-lhe a possibilidade de interagir com mais frequência e em mais intensidade com gente mais sênior, tirar a chance de criar vínculos com pessoas que, do contrário, não estariam em seus círculos de amizade é o mesmo que tirar-lhes a possibilidade de crescimento pessoal e profissional rápido e sólido.

Profissionais em início de carreira precisam de interação frequente, de exemplos para seguir e acesso rápido e prático a gente mais experiente. O HO vai tirar tudo isso de você em troca de um comodismo barato. Se você for um iniciante e tiver algo para absorver desse texto, é isso: não aceite esse comodismo na sua vida, o HO é o caminho fácil e caminhos fáceis não costumam ter bons finais. Mesmo que você não veja isso nitidamente agora, o preço profissional pago é alto demais.

Considerando tudo isso, todo esse mar de promessas e esses facilitadores, fica evidente porque muitos caem no conto do vigário e optam, mesmo sem gostar da profissão, em seguir carreira como programador.

E no mercado de trabalho o efeito disso também é bem perceptível: profissionais cada vez menos capacitados cobrando cada vez mais.

Se, com tudo isso em vista, você ainda optar pela área de tecnologia, entre de cabeça. Não aceite ser apenas mais um na massa de programadores que sabem apenas copiar trechos de código de um lado para o outro. Dedique-se! Aprenda a aprender. Crie e desenvolva dia após dia projetos paralelos, não se limite ao seu tempo de trabalho, resolva você mesmo problemas do mundo real. Mesmo os que já foram resolvidos, tente fazer você. Não seja um programador especialista em um framework ou uma linguagem, o mercado já está cheio deles. Dedique-se a aprender o core da nossa profissão. O que é sólido e não muda década após década. Pare de orbitar as camadas mais externas e de focar apenas em uma tecnologia ou outra, isso muda todo dia. Todo dia surge um framework novo, uma nova tecnologia revolucionária e, quanto antes você descobrir que não é isso que importa, melhor. Aprenda algoritmos, estruturas de dados, padrões de projeto. E, acima de tudo pratique. Todo dia. Pratique, pratique e pratique de novo. Não se contente enquanto não esbarrar em um problema que não consegue resolver e celebre quando encontrar um, são nesses momentos de frustação que o aprendizado ocorre de verdade.

Também não deixe de ler bons livros e de seguir bons profissionais. De novo, não foque em livros sobre a linguagem A ou B. Ou livros sobre o framework X ou Y. Foda-se isso! Leia os grandes da nossa área, aprenda com eles. Leia Clean Code, Pragmatic Programmer ou Coders At Work. Pesquise no YouTube conteúdos desses autores, como as excelentes palestras de Robert Martin, que são um tesouro gratuito ao público.

Aliás, a primeira lição do livro Pragmatic Programmer é “Care About Your Craft”. E ele diz: Why spend your life developing software unless you care about doing it well?

Ou seja, decida ser um programador apenas se for para ser um bom programador. Do contrário, escolha outra profissão. E não caia nas historinhas, ser um programador de verdade não é fácil, não é rápido e vai ser extremamente mais difícil se você optar por fazer isso sozinho (em HO). Como em toda profissão, não existem corta caminhos, ou você é all in ou você é a média.