Digamos que você assumiu a posição de líder agora, ou só quer dar uma reciclada nas suas habilidades, e não faz ideia de por onde começar. Vou começar pelo básico, que é de onde tudo deveria partir.
São Tomás de Aquino, um dos maiores filósofos que já existiram, dizia, ainda no século XIII, numa lista de 16 conselhos que deixou como orientação para a busca do conhecimento:
“Escolhas entrar no mar pelos regatos, não diretamente, pois é pelo que é fácil que convém chegar ao mais difícil.”
Por isso, não vamos nos apressar. Aqui eu quero falar sobre duas coisas: o papel do autoconhecimento e o que é, de fato, ser um líder.
Se conhecendo primeiro
Antes de querer liderar é preciso se conhecer primeiro. Você nunca vai liderar de forma efetiva sem antes ter pleno domínio de si. E por que isso importa? Importa porque a liderança é uma via de mão dupla entre líder e liderado e, quando você não se conhece, boa parte das suas reações vão sair no piloto automático, principalmente quando tem emoção envolvida (e não se engane, vão surgir muitos casos assim).
Sendo mais pragmático, comece se fazendo as seguintes perguntas e anote as respostas:
- O que te deixa animado?
- O que te deixa irritado?
- O que você valoriza?
- Quais comportamentos você admira nas pessoas?
- Como você reage quando fica nervoso?
- Como você reage quando fica alegre?
- O que te decepciona?
- Como você aprende?
- Como você gosta de receber feedback?
- Você prefere um ambiente mais calmo ou mais agitado?
Depois de responder, analise com calma cada uma delas e reflita como podem influenciar a sua relação com seu(s) liderado(s). Vendo as respostas, você percebe algum ponto aparente de melhoria? Se sim, qual é?
Mais importante que as respostas em si é perceber que essas são as suas respostas, e não as de nenhum liderado seu. Ou seja, o que te decepciona pode não ser o que decepciona alguém que você lidera. A forma como você aprende pode ser totalmente diferente da de quem você lidera. É primordial ter em mente que lidamos com pessoas, e que pessoas são únicas e complexas. Não existe fórmula mágica para liderar. O melhor jeito de liderar o fulano pode ser totalmente diferente do melhor jeito de liderar o ciclano. E tudo bem! Cada um é composto pelos seus traços de personalidade, seu estágio de maturidade emocional, suas crenças e valores, suas habilidades sociais, seus vieses cognitivos. Portanto, não espere um roteiro pronto te ensinando a liderar. E se alguém estiver te vendendo isso, está mentindo.
O que de fato existe são boas práticas de liderança, frameworks testados e validados, e que na sua equação de execução sempre levam em conta a individualidade de cada um. Do contrário, não importa a metodologia, ela está fadada ao fracasso.
Uma boa analogia é pensar num time de futebol. Um treinador pode ensinar a todos as regras do jogo, as técnicas, o melhor jeito de fazer A ou B. Porém, numa partida real, o time sempre vai ter que se adaptar ao adversário. O estilo que funciona muito bem contra um time pode ser um desastre total contra outro. E não entenda errado, não é que seu liderado seja seu adversário. O foco aqui é entender que não existe bala de prata nem receita pronta, e que uma das habilidades mais importantes de qualquer líder sempre vai ser a adaptabilidade.
A definição de líder
Entendido o papel do autoconhecimento, vamos para a busca do que é um líder e, mais especificamente, do que faz um bom líder.
O dicionário Michaelis tem duas definições bem interessantes para líder:
- Pessoa com poder de decidir, de se fazer obedecer;
- Pessoa com capacidade de influenciar nas ideias e ações de outras pessoas.
Apesar de definirem a mesma coisa, deveria ser evidente que ambas denotam formas muito diferentes de liderar. A primeira é uma abordagem quase “comando e controle”, onde manda quem pode e obedece quem tem juízo. Já a segunda aponta um líder mais inspiracional: “pessoa com capacidade de influenciar”. Perceba que a capacidade de influenciar não depende só do líder, mas também do liderado. Alguém que prefere ser liderado com ordens diretas e práticas pode não se importar em ter um líder inspiracional, e com certeza não se importa se o líder tem ou não capacidade de influência. Para esse tipo de liderado, ele(a) é o líder, e isso basta.
Para deixar as duas abordagens um pouco mais claras, podemos pensar num cenário militar como bom exemplo de lugar com líderes que têm o poder de decidir. Tudo depende da patente: quem tiver a mais alta manda em quem tiver a mais baixa. Perceba, é claro, que isso é só uma simplificação para fins de exemplo, e que no cenário militar pode sim existir líder que entra na segunda definição, com capacidade de influenciar ideias e ações.
E não pense que alguma das definições está errada. Ambas funcionam e estão, relativamente, corretas. O ponto principal é entender que o jeito de liderar deve ser fruto de um acordo entre líder e liderado. Já que a liderança sempre envolve mais de uma pessoa, nada mais justo do que todos estarem em consenso sobre o formato escolhido.
Por isso, se faça a seguinte pergunta: o que é um bom líder para você?
Depois, repasse a mesma pergunta para seus liderados. Para que todos fiquem mais à vontade, deixe que respondam de forma anônima, num formulário simples.
Quando tiver a resposta de todos, extraia os termos em comum (ou já deixe as respostas predefinidas para seleção) e veja os que mais se repetem. Talvez você termine com algo assim:
Se o termo que mais se repetir for “inspirador”, ou algo parecido, isso te dá uma boa ideia da forma de liderança preferida da sua equipe.
Depois de analisar as respostas deles, compare com a sua. Líder e liderados estão alinhados quanto à forma de liderança?
Por onde começar
Antes de qualquer técnica ou framework, comece por você. Releia com calma as suas respostas para as perguntas lá de cima e tente perceber como elas influenciam a sua relação com quem você lidera.
E, como exercício, anote suas emoções enquanto está no trabalho. Perceba como você reage ao que acontece e que emoções aquilo produz em você. É um material rico pra você se conhecer melhor. Liderança não tem ponto de chegada; é aprimoramento contínuo, e ele começa em quem lidera.